Em sessão judicial, Eva do Amaral Coelho afirmou que categoria não terá como "pagar as contas", apesar de receber remuneração líquida superior a R$ 91 mil em março de 2026.
Uma declaração da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA), gerou forte repercussão nesta semana. Durante a 8ª sessão da 3ª Turma de Direito Penal, a magistrada classificou a situação financeira da magistratura como "muito triste" e chegou a comparar as condições de trabalho a um "regime de escravidão".
Contudo, dados do Portal da Transparência revelam um cenário financeiro robusto: somente em doze meses de 2025, a desembargadora recebeu o montante bruto de R$ 1.024.117,30.
"Fundo do alçapão" e crise financeira
As falas de Eva Coelho ocorreram após o Supremo Tribunal Federal (STF) estabelecer critérios rígidos para o pagamento de verbas indenizatórias, os chamados "penduricalhos", para juízes e membros do Ministério Público.
“Nós não temos direito mais a auxílio-alimentação... daqui a pouco a gente vai estar no hall daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão”, afirmou a desembargadora durante a sessão.
A magistrada alegou que colegas estão deixando de frequentar médicos e tomar remédios por falta de verba. "Hoje a gente vive uma tensão enorme, porque não teremos, em algum tempo, como pagar nossas contas", completou, afirmando que a categoria não está no "fundo do poço", mas sim no "fundo do alçapão".
Os números da magistrada
Em contraste com o desabafo, o Portal da Transparência mostra que, em março de 2026, a desembargadora obteve uma remuneração bruta de R$ 117.863,72. Após os descontos obrigatórios, o valor líquido que caiu em sua conta foi de R$ 91.211,82.
A desembargadora defendeu o empenho da classe, mencionando o excesso de horas extras realizadas em casa e nos finais de semana, e lamentou que juízes sejam vistos pela população como "vilões" ou "pessoas sem escrúpulos".
Trajetória e o caso Eldorado do Carajás
Nascida em 15 de julho de 1951, Eva do Amaral Coelho tem 74 anos e completa quatro décadas de carreira no Judiciário paraense. Ingressou na magistratura em 1985 e passou por comarcas como Afuá, Conceição do Araguaia, Castanhal e Icoaraci.
Sua trajetória é marcada pela atuação em um dos casos mais emblemáticos do Brasil: o Massacre de Eldorado do Carajás. Entre 2001 e 2002, ela presidiu as fases iniciais do julgamento dos 149 policiais militares envolvidos na morte de 19 trabalhadores rurais do MST. O episódio completa 30 anos em 2026. Na ocasião, ela acabou desistindo do caso em maio de 2002, após o MST alegar perda de sua imparcialidade devido à retirada de um laudo da Unicamp do processo.
O que mudou com a decisão do STF?
A polêmica surge no rastro da nova tese fixada pelo STF, que padroniza as parcelas indenizatórias permitidas a magistrados, submetendo-as a regras de transparência e ao teto constitucional, até que o Congresso Nacional aprove uma lei específica sobre o tema.
Até o momento, a desembargadora não se manifestou oficialmente sobre a repercussão de suas falas. O espaço segue aberto para posicionamento.
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